Morte e Vida Severina

Por Bertrant Vilanova, filho de Dona Severina

Dona Severina nasceu no dia 28 de março de 1938 em Rio da Barra, município de Custódia no sertão pernambucano. Antes de completar dez anos sua mãe faleceu e ela teve que cuidar dos outros três irmãozinhos que logo foram entregues para morar com outros parentes. A adolescente Severina foi enviada para a cidade de Arcoverde onde fora criada por uma família tradicional. Aos dezessete anos casou-se e teve sete filhos.

Ela é uma pessoa simpática, atenciosa e que gosta conversar e fazer novas amizades. Católica por tradição familiar e convicção pessoal, ela tornou-se numa fervorosa devota do frade capuchinho Frei Damião de Bozzano (1898 – 1997), considerado santo pelos seus seguidores.

Frei Damião ocupou-se em evangelizar através das “santas missões” pelo interior do Nordeste. “As santas missões” era um tipo de cruzada missionária, de alguns dias de duração, pelas cidades nordestinas. Nessas ocasiões, era armado um palanque ao ar-livre com vários alto-falantes onde o frade transmitia os seus sermões. Dessa forma ele conseguia arrastar multidões para ouvir suas palestras e tornou-se um fenômeno de popularidade religiosa no nordeste, só comparável ao “Padim Ciço”, de Juazeiro do Norte, a ponto de ser aclamado pelos católicos locais como o legítimo sucessor do Padre Cícero Romão Batista.

Dona Severina viajou para várias cidades e povoados do interior do nordeste para participar das “santas missões”. No final dos anos setenta, Frei Damião e Frei Fernando, seu grande companheiro de ministério, realizaram uma “cruzada” na cidade de Arcoverde-PE, onde morávamos. Nesse período dona Severina recebia e hospedava em nossa casa dezenas de parentes que eram romeiros e devotos do Frei Damião, que vinham dos sítios e povoados adjacentes para ouvir os seus sermões. Nossa residência parecia uma “pousada”, pois diariamente todos faziam as refeições e a noite dormiam espalhados em quase todos os cômodos da casa. Ela servia a todos com alegria e singeleza no coração, ao contrário de seus filhos, que sentiam falta de privacidade, no qual eu sou um deles.

Em 1981 fui morar e estudar em Recife-PE e em meados dos anos 80 meus familiares também foram morar na capital pernambucana. No ano de 1987 algo novo aconteceu na minha vida: me converti ao Senhor Jesus, fato esse que provocou indignação em minha mãe que não admitia que seu filho trocasse a religião católica pela “Lei dos Crentes” (como os evangélicos são conhecidos no sertão). Começou então um período de relacionamento difícil entre eu e minha mãe, porque ela considerava que eu havia “traído” à família. Desde então passei a orar para que o Senhor alcançasse o seu coração com a Sua misericórdia. 

Como católica praticante, dona Severina frequentava a Igreja Paróquia de Santa Luzia, no Recife. Em meados de 1995, a saúde do frade capuchinho ficou frágil e em maio de 1997 ele foi internado no Hospital Português do Recife. Nesse período, um dia eu estava assistindo o Jornal Nacional da Rede Globo que mostrava um boletim da saúde do Frei Damião, foi então que vi “ao vivo” minha mãe rezando com um “terço” na mão juntamente com os capuchinhos e algumas devotas de “plantão”. Como a mídia estava fazendo uma cobertura da enfermidade do Capuchinho, então a vi várias vezes na telinha acompanhando de perto o seu “santo protetor” Frei Damião. Um fato curioso é que ela tinha autorização para visitar o Frade Capuchinho no interior do apartamento o qual estava internado.

Após vinte e cinco dias internado no Hospital Português, no dia 31 de maio de 1997, os graves problemas de insuficiência respiratória causaram sua morte, aos 98 anos. O fato provocou imensa comoção em todo o nordeste. Durante três dias, seu corpo embalsamado, foi velado na Basílica da Penha e no Estádio de Futebol do Arruda e foi enterrado no Santuário dos Capuchinhos no bairro do Pina na Capela de Nossa Senhora da Graças, no Convento de São Felix de Cantalice. Esse local virou centro de peregrinação para os romeiros e devotos que vem de muitas cidades do nordeste. Dona Severina aproveitou a oportunidade e montou uma barraca para vender souvenires religiosos aos romeiros, devotos e turistas que visitavam o santuário.

Um dia, dona Severina estava fazendo compras no bairro de afogados, quando um jovem obreiro da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) a convidou para assistir uma “novena”. Curiosa ela aceitou o convite e gostou da tal “novena”. Passou então a frequentar assiduamente três instituições religiosas que são: Paróquia de Santa Luzia, Santuário do Frei Damião e a Igreja Universal do Reino de Deus.

Em uma das viagens que fiz para visitá-la, de João Pessoa-PB onde moro, para Recife, ela disse que tinha uma novidade para me contar. Fiquei curioso e pedi que contasse logo. Então ela me trouxe uma sacola de papel com alguns objetos e disse:

– Meu filho, quero compartilhar contigo algumas “novidades” que eu trouxe da IURD. Então tirou da sacola um objeto que eu não sabia se era uma cruz ou uma espada. Curioso, perguntei-lhe o que era aquilo. Respondeu-me:

– Isso é uma espada com a qual a gente mata o “capeta”. Depois ela tirou da sacola uma pequena vassoura e foi logo me explicando.

– Com essa vassourinha eu lavo a casa à meia noite e vou varrendo toda a água e sujeira da cozinha até a porta da frente.

– E o que acontece mãe? Perguntei-lhe:

– A casa fica protegida dos encostos e mau olhado.

Em seguida ela tirou da sacola uma rosa que, devido à ação do tempo, estava preta e murcha. Explicou-me que era uma “rosa ungida” e que ficou nesse estado deplorável devido aos “maus olhados” que absorveu. Finalmente ela tirou da sacola um envelope no qual estava escrito: “Fogueira Santa de Israel”. Ao ver tudo isso eu senti uma grande compaixão pela minha mãe e disse-lhe que Jesus a amava muito. Depois retornei para João Pessoa e fiquei orando por ela, para que o Senhor lhe mostrasse o caminho da verdade que é Jesus.

No ano de 1999 dona Severina começou a sofrer alguns transtornos de comportamento e após um exame médico constatou-se que era um aneurisma cerebral. Ela então foi submetida a uma delicada cirurgia a qual foi curada, fato esse que atribuí à graça de Deus. Em janeiro de 2004 foi diagnosticado que ela estava com um tumor maligno próximo ao intestino. Ela então foi submetida a uma nova delicada cirurgia e tendo tudo ocorrido normal, ela voltou para sua casa. Inesperadamente o local da cirurgia começou a inchar e por isso sentia fortes dores e imediatamente teve que retornar ao hospital. A situação era gravíssima, pois todo o procedimento cirúrgico rompeu-se e o intestino ficou encolhido. O médico disse que não havia mais o que fazer por ela, mas que iria realizar uma nova cirurgia. Entretanto o médico previa que ela não suportaria e morreria no ato. Como não havia outra solução à família autorizou a nova cirurgia que foi marcada para o dia três de março de 2004, quarta feira.

Na segunda-feira, dia um de março, dona Severina fez uma oração pedindo a Deus que se ela ficasse curada, sem precisar fazer essa nova cirurgia, iria participar do culto da unção na Igreja Batista em Jardim São Paulo, Recife-PE, na sexta-feira dia cinco. Na terça-feira, dia dois de março, um dia antes da cirurgia marcada, entrou uma equipe de médicos e enfermeiros em seu quarto. O médico plantonista, com uma prancheta na mão, trouxe uma noticia dizendo que ela estava curada, pois os exames não acusaram nenhum problema e que ela poderia retornar para sua casa. Glória a Deus!

Durante o período de internação no Hospital Barão de Lucena, dona Severina teve a companhia quase que diariamente da Irmã Gisa, que é membro da Assembléia de Deus e vizinha que mora em frente a sua casa. A irmã Gisa falava do amor de Deus e orava continuamente por ela. Na noite em que antecedeu a cirurgia de Dona Severina, cujo desfecho seria a morte, a irmã Gisa sonhou que via dona Severina viajando com todas as malas cheias de seus pertences numa estrada que não tinha fim. Ao acordar nessa madrugada ,irmã Gisa discerniu o sonho, crendo que essa viagem significava dona Severina partiria para a eternidade sem Cristo. Em outras palavras, que ela iria morrer sem a salvação. Nesse momento, às três horas da madrugada, a irmã Gisa acordou a sua filha Grace e ambas de joelho intercederam ao Senhor suplicando que tivesse misericórdia de dona Severina e que alcançasse o seu coração trazendo-lhe perdão, salvação e vida eterna.

Um fato curioso me veio à lembrança: quando dona Severina recebera a visita dos médicos e enfermeiros, os quais estavam vestidos de branco, eram tantos que ela mal podia contar. Então fiquei um pouco confuso e aí “a ficha caiu.” Percebi (discerni) que na realidade ela estava vendo anjos, pois em hospital público jamais ela receberia a visita de vários profissionais num só momento. Além do mais, o fardamento dos profissionais eram verdes… Lembrando que foi nesse dia que ela recebeu a noticia que estava curada e não mais precisaria se submeter à nova cirurgia.

Conforme prometido em oração, dona Severina foi para o culto na Igreja Batista em Jardim São Paulo. Durante o culto o pastor Paulo Hortêncio a convidou para dar um testemunho e ela falou para quase duas mil pessoas sobre a cura que Deus lhe deu. Nessa noite ela me telefonou e contou o que Deus fez em sua vida e finalizou dizendo:

– Meu filho, eu acho que vou ser uma evangélica. Fiquei feliz com esta notícia e agradeci a Deus por tão grande compaixão.

No dia 28 de março de 2004, data do seu aniversário, no culto de domingo na Igreja Batista em Jardim São Paulo, dona Severina confessou publicamente a sua fé no Senhor Jesus, após a mensagem do Pastor Paulo Hortêncio Filho. Nesse dia ela entregou sua vida a Jesus como Salvador e Senhor.

Após esse dia a irmã Severina ajuntou as imagens, esculturas e literaturas catequéticas e as colocou numa bolsa e foi até a Paróquia de Santa Luzia e devolveu ao Padre Lins, explicando que ela se tornara uma evangélica. Em seguida juntou as imagens, esculturas e todo material referente ao Frei Damião, colocou numa bolsa e devolveu pessoalmente aos Frades Capuchinhos no santuário do Pina. Da mesma forma ela juntou as vassouras, espadas, rosa ungida e outros materiais “religiosos”, colocou-os num saco e devolveu aos obreiros da IURD.

Desde então, onde havia um “altar” no seu quarto com imagens e esculturas dos “santos” que se devotava, havia uma Bíblia que ela lia diariamente para conhecer a vontade de Deus para sua vida. A irmã Severina foi batizada nas águas na Igreja Batista em Jardim São Paulo, Recife, e durante dois anos e meio viveu intensamente o Evangelho, tornando-se numa fervorosa seguidora de Jesus Cristo.

Em novembro de 2006 a irmã Severina foi internada no Hospital do IPSEP, em Recife, pois sentia cansada e dores no coração, pois ela também sofria do mau das chagas. Ficou internada na UTI cerca de vinte dias e aos poucos ela foi tendo falência múltipla dos órgãos e no dia 12 de dezembro de 2006 o Senhor convocou a Irmã Severina para viver ao seu lado na Mansão Celestial.

Prezados irmãos, o Evangelho é o poder de Deus que transforma vidas, creia nisso. Eu passei 16 anos orando por minha mãe e contemplei a graça de Deus que alcançou sua vida. Saibam que ainda existem muitas “Severinas” dos sertões nordestino até os confins da terra aguardando alguém ou mesmo você para falar do amor de Deus. Que Deus te abençoe.

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